segunda-feira, 6 de junho de 2016

O que o silêncio disse

       Olhava em silêncio, inquieta, com os olhos curiosos que transbordavam a vontade de saber o que se passava ali. Fazia como se estivesse prestando atenção, mas, quanto mais ele falava, mais sua atenção se voltava para a boca dele, para os braços chamativos que gesticulavam, juntos com as mãos grossas, grandes e firmes.  
       Tentava ficar séria, não queria transparecer nenhum tipo de tensão, embora suas reações fossem muito aparentes. As vezes apertava os dedos com força, que logo subiam para o braço começavam a arranha-lo discretamente, agoniada, nervosa, querendo, na verdade, cravar as unhas naqueles ombros largos que se moviam um pouco a sua frente, acompanhando aqueles braços, que acompanhavam aquelas mãos... O corpo todo, sincronizado, falando com clareza e naturalidade, com certeza dos argumentos. Era para ser como qualquer um, mas, por algum motivo possuía diferença. Um olhar sério, a barba mal feita. Tudo fazia o corpo dela se submeter a espasmos de agonia, desejos secretos disfarçados de ansiedade.  - Concordas? 
       Disse ele, coçando um pouco a baixo do queixo, próximo ao pescoço, mexendo os pelos da barba enquanto aguardava pela resposta. Ela respirou fundo, arregalando um pouco os olhos enquanto voltava dos seus devaneios e tentava resgatar flashs das ideias discutidas para formular uma resposta. Dentre alguns segundos relembrou o assunto da conversa: Filmes. Desencadeando uma sequencia de acontecimentos ocorridos durante os diálogos e enfim a pergunta: "concordas"?   
  - Sim. 
       Respondeu sorrindo timidamente, botando o cabelo atrás da orelha, olhando-o de baixo, com a cabeça um pouco curvada para o chão, mas, com seu olhar direto nos olhos dele.    
  - É mesmo? 
       Retrucou-a, rindo com ar de provocação, deixando a entender que percebera a distração, o nervosismo, e arrumou a blusa como querendo provocar mais uma vez. Era tudo uma incógnita, não existiam certezas, apenas sinais, muitas vezes ambíguos, outras, gritantes. A única certeza propriamente dita era o desejo, a paixão, isso sim certamente existia. Ela não conseguia entender, mal se falavam mas cada palavra era confortante. Tudo que era para ser tedioso e monótono tinha graça, e ela ria, tímida, enfeitiçada. Não era acostumada aquilo, gostar em silêncio, vibrar ao avistar um par de olhos, mesmo que castanhos e sonolentos. Mesmo que fossem tão comuns, eram tão bonitos.  
       Entristecia durante dia, mudava de humor algumas vezes, ria, chorava, sentia uma certa raiva por ele, por não poder toca-lo, vê-lo. Não que a vida fosse boa, e nem que o único motivo da tristeza fosse ele, mas, nada importava tanto diante disso. "Estou beirando a loucura", ela pensou, mas, o que seria o amor se não o mundo dos lunáticos?  

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